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AS BATALHAS DE UMA COMUNIDADE

Joaquim rememora a chegada nas matas cheias de caças e árvores. Antônio lembra das oportunidades de trabalho. Clarinda comenta sobre os desafios da primeira escola. Angelita não esquece o impacto das siderúrgicas. Essas lembranças nos ajudam a construir a trajetória do bairro de Piquiá de Baixo, que se destacou no País e no exterior mobilização de famílias pelo reassentamento coletivo, após anos de degradação ambiental e danos à saúde dos moradores causados pela ação da indústria mineradora.

Piquiá é um dos bairros mais antigos de Açailândia-MA, vila que surgiu em 1958, com o início da construção da BR Belém-Brasília. Uma área do local, conhecida depois como Piquiá de Baixo, foi ocupada na metade dos anos 60. Vieram famílias atraídas pela chance de vencer as dificuldades, começar uma vida nova em um pedaço de chão fértil.  Eram agricultores que queriam viver, plantar e construir outros sonhos. Com o fim das obras da BR 222, que ligou a região à capital São Luís. Em 1972, mais moradores se fixou no bairro, atraídos pela exploração madeireira e a agricultura.

A partir da década de 80, quando Açailândia foi emancipada, Piquiá iria ficar conhecido como o bairro industrial daquela localidade. Projetos de grande impacto socioambiental e relacionados à indústria mineradora se instalaram para atender aos interesses do projeto Grande Carajás, que tinha como objetivo exportar o minério extraído na Serra de Carajás-PA, levando-o até o Porto de São Luís-MA. Se instalaram no bairro cinco empresas: Viena Siderúrgica S/A,  Siderúrgica do Maranhão S/A (Simasa), Companhia Vale do Pindaré, Ferro Gusa do Maranhão Ltda (Fergumar) e Gusa Nordeste. No mesmo bairro também foi construída parte da Estrada de Ferro Carajás, para o transporte do produto, e um entreposto de minério da Vale S/A, responsável pela ferrovia.

O nome do bairro era inicialmente escrito com “i”, Piquiá, como documenta a placa de 1974, que marcou a fundação da primeira escola municipal do bairro, a Almirante Barroso. O nome era possivelmente uma referência às matas abundantes de lá e a uma árvore amazônica de grande porte e resistência, Piquiá, que dá uma fruta semelhante ao pequi, embora maior. Com a chegada das siderúrgicas e da indústria do minério, o nome do bairro passou a ser grafado com “e”: Pequiá, sigla de Petroquímico Açailândia. E essa não foi a única mudança, …. tempos difíceis estavam chegando.

“LÁ AS TERRAS NÃO TINHAM DONO”

Joaquim: Piquiá era lugar de caça abundante e muita floresta

Joaquim Amaral de Sousa chegou com 17 anos à Açailândia, em 1962. A trajetória da família dele foi decisiva para o surgimento de Piquiá de Baixo. Junto com os pais e quatros irmãos, saiu de Vitória da Conquista-BA naquele começo da década de 60, no período do inverno. A viagem não foi nada fácil. Foram nove dias indo do nordeste para o centro-oeste e de lá para o Maranhão, enfrentando atoleiros na estrada e a chuva num “pau de arara”. Quando chegaram em Açailândia, os pais dele, Joana e Genésio, alugaram uma casinha, porém, logo depois se entusiasmaram com a descoberta de um rio e terras numa área próxima. “Lá as terras não tinham dono. Tudo era mato”, relembra Joaquim, hoje com setenta anos.

Seu Genésio não perdeu tempo. Queria uma terra para assentar a família após amargar anos em plantações que não davam futuro na Bahia. Corria 1964. “Meu pai tirou aquela posse no Piquiá, mil metros com mil na beira rio, dois de fundo, dá 200 hectares. Meu irmão tirou na pista 500 por dois”, calcula Joaquim. Porém, ele enfrentou no mesmo período uma situação muito triste: a mãe, dona Joana, não conseguiu resistir à malária e faleceu.

 A vida prosseguiu com um futuro que parecia promissor. E assim foi surgindo a comunidade de Piquiá, lugar de caça abundante e muita floresta. “Tinha anta, onça, tatu, paca, jabuti. Era caça encostadinha na beira do rio”, conta Joaquim sobre a facilidade de capturar o alimento para o almoço ou jantar.

 Além dos animais, a madeira era outra riqueza, como os pés de cedro, ipê e goiabão (árvore utilizada para fabricação de móveis). As frutas também não faltavam. Tinha de todo tipo. Entre elas, cita o agricultor, estavam à castanha e o cupuaçu. Nessa época, Joaquim e a família plantavam milho, arroz, feijão e mandioca.

Para revender a produção agrícola da família, se uniram aos outros pequenos posseiros que foram chegando. Então construíram uma estrada para o rio e assim levaram os produtos para serem comercializados em Açailândia.

Em 1968, a construtora Mendes Júnior chegou com uma novidade: a construção de um trecho da BR 222.  Mais gente chegava e as disputas pelas terras em torno da estrada se intensificaram, o que levou a família de Joaquim a vender parte dos terrenos, especificamente os que estão atualmente nas proximidades da igreja católica.

Após a conclusão da BR 222, perto de 1972, a construtora deixou um espaço para a primeira escola. A cantina dos operários se transformou em salas de aula, em 1974. A comunidade de Piquiá estava crescendo nos anos 70. Já havia uma demanda pela escola, o que mostrava ter ali um bairro pulsando. O registro mais antigo preservado, uma turma de 1976, do turno vespertino, aponta que a escola estava atendendo, no mínimo, 33 famílias naquele ano. Esse levantamento foi feito a partir dos sobrenomes dos estudantes, mas o número pode ser maior porque poderiam existir famílias com filhos sem idade escolar.

Joaquim também pontua outras transformações que Piquiá começou a sofrer naquele período, a segunda metade dos anos 70. “Os  posseirinhos fracos foram vendendo suas terras para os posseiros mais ricos”, afirma se referindo a venda dos terrenos com a chegada da BR 222 e dos novos proprietários das terras, vindos de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Mato Grosso. Mas outros resistiram e não repassaram seus terrenos: “Ainda hoje tem os que não venderam: Valdo Figueiredo, Afrânio, Adelino e Urias”, ressalta.

Àquela altura, a vida do agricultor foi mudando de rumo. Ele se transformou em comerciante para aproveitar a movimentação em torno das serrarias que despontavam e da estrada de ferro Carajás em construção. Arroz, feijão, farinha, sal, açúcar, café e querosene eram alguns dos itens vendidos no ponto comercial. O novo ofício lhe rendeu um apelido anos depois, “Joaquim da cancela”. A cancela se referia à entrada de uma das siderúrgicas que iriam ocupar o bairro nos anos 80.

“NÃO ERA POLUÍDO”

Foto: Antônio Rios


Outro morador que chegou no final dos anos 60 em Piquiá foi Antônio Araújo, à época com 18 anos. Com fala firme e gestos decididos, Antônio não deixou que os anos apagassem as lembranças daquela longa jornada em direção à Imperatriz. O objetivo era conseguir um emprego. Foram 28 dias a pé até o destino. Isso mesmo: uma caminhada de 383 km, a distância que separa o ponto de partida, a cidade de Santa Inês-MA, de Imperatriz.

Ao chegar lá, ficou sabendo que o lugar de oportunidades era outro. “O falatório sobre Açailândia estava maior que tudo”, relembra Antonio, ao datar a chegada: por volta das 9h da manhã do dia 15 de agosto de 1969. Não pensou duas vezes e após mais 12 horas de caminhada fincou os pés em Açailândia, onde soube que a construtora Mendes Júnior tinha feito um acompanhamento num local que tinha nome de fruta, chamado Piquiá. “Lá tinha muita mata, muito oportunidade de ganhar dinheiro”, diz o agricultor. Antônio comenta que Piquiá era bem diferente do que era hoje. “Não era poluído. Era floresta mesmo, tinha pé de um tudo um pouco”.

 Ele ficou um tempo na região onde alternou atividades em Piquiá e em outro local, chamado Colônia, que hoje não existe mais. Antonio comenta que Colônia teria sido o primeiro bairro de Açailândia, então localizado na BR 010, aproximadamente a 3km da área central da cidade. Ainda no início dos anos 70, chegou a morar fora, em cidades como Marabá-PA e Amarante-MA. No entanto, voltou logo depois para Piquiá, onde ficou trabalhando na roça e nas madeireiras.   

 Antonio, também conhecido como Antonio Rio ou Zé Grandão em razão do apelido de infância e da estatura, se recorda que o ambiente de trabalho e de moradia era bom na comunidade. “Fiquei aqui com essa turma toda”, diz ao se referir aos “baianos”, como Joaquim Genésio e outros nordestinos que trabalhavam na agricultura familiar.

 Na década seguinte, começou um processo que Antonio nomeia de “batalha”. A instalação da Estrada de Ferro Carajás e de cinco siderúrgicas trouxeram problemas para os moradores, como o barulho dia e noite da ferrovia e a poluição do ar com a poeira escura dos fornos. O agricultor foi um dos que apoiou a mobilização para que os direitos dos moradores fossem respeitados. “Antes da associação (dos moradores) todos andavam de cabeça baixa”, relata Antonio, que ficou viúvo anos depois. A esposa começou a passar mal e uma das queixas era a respiração difícil. Ela não resistiu e faleceu.  

“NO PIQUIÁ, A ESCOLA ERA MAIS ORGANIZADA”

Foto: Clarinda

Próxima à casa do agricultor Antonio Rio, em Piquiá de Baixo, está a Escola Municipal Almirante Barroso. Fundada oficialmente em 1974, guarda os registros dos que passaram pelo bairro. É considerada uma das mais antigas de Açailândia.

Clarinda de Sousa Brandão, 77 anos, a primeira diretora, detalha bem os primeiros anos da escola. Quando chegou ficou sabendo que a comunidade já tinha organizado “turmas” antes.  Primeiro teria sido um professor chamado Luís e depois uma professora de nome Maria, que faleceu em pouco tempo. Depois uma terceira professora assumiu a sala, que ficava numa casa de palha, porém logo saiu.  

Vinda de outras localidades, como Açaizal, São Félix e Grota d’água, onde havia salas improvisadas, a professora Clarinda achou o trabalho melhor já que havia uma estrutura montada. “No Piquiá a escola era mais organizada em relação aos locais anteriores. Era maior, tinha farda e reunião com pais”.

O colégio de Piquiá atendeu às crianças do ensino fundamental, até o 4º ano, que moravam nas proximidades. Tinha três salas e a secretaria, além do quintal para os recreios. Além das crianças, foram organizadas turmas do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado em 1968 pela ditadura militar para ensinar adultos a ler)¸ no turno da noite por alguns anos.

No entanto, o trabalho não era fácil. Como diretora teve que organizar tudo, da matrícula à contração de professores no começo da gestão. “Tinha a professora Januária, Josefá, Laurita e Ivonete”, cita Clarinda.

A diretora, que morou em Piquiá durante vários anos, se recorda do funcionamento do bairro. “As ruas não tinha nomes, só depois colocaram”. Outra lembrança é ressaltada: o nome inicial do colégio não era o de hoje, em homenagem ao comandante da Guerra do Paraguai (1864-1870), Almirante Barroso, e sim “Escola Municipal Piquiá”. Talvez seja por essa razão que a placa histórica da escola não traga a menção ao militar

Ao residir no bairro com os filhos, na metade dos anos 70, Clarinda, que nasceu em São Raimundo das Mangabeiras-MA, relembra dos muitos vizinhos com os quais construiu amizades. “Zé Cândido ainda está lá, esposo de Edite. Zé Piauí, com esposa Maria, que tem filho e neto lá. Tem ainda a do seu Joaquim e dona Osmarina, que moravam perto da entrada da Gusa e da Pindaré”.

Como morou perto da escola, aponta os amigos do outro lado da estrada. “A dona Maria mais seu João Inácio. Hoje moram os netos dela; Raimundo Tuba, cuja casa caiu. A esposa dele, Nazaré, que mora no Buriti. Ligada a do Raimundo, tinha a Tida”, enumera. “Tem a casa do seu Milque. A mulher mora lá, perto do colégio. Tem a casa do seu Pedro. A casa está fechada e caindo. Tem a casa da Sese, que trabalha lá, mas se mudou. Tem a casa de Olício, mas a casa tá caindo. Tem a casa do seu Santo e outras casas. Ele já morreu”. As moradias “caídas” foram desocupadas pelos moradores para fugir da poluição.

            A diretora residiu em Piquiá de Baixo até 2008, quando saiu por causa dos danos causados pela má qualidade de vida. “Eu via da minha casa o fogaréu do ferro descendo da Gusa. Se não tivesse saído tinha morrido”, enfatiza. Clarinda afirma que na chegada as siderúrgicas havia promessa de muito emprego, o que não se concretizou porque as empresas já traziam funcionários de Minais e São Paulo. “Tanta gente que tinha aqui, sem emprego, sem nada”, comenta a professora.

“ERA UM LUGAR BEM MOVIMENTADO”

Foto: Angelita

A piauiense Angelita Alves de Oliveira, 66 anos, chegou em Piquiá em 1975, e se admirou com o que encontrou. “Era um lugar bem movimentado, tinham comércios grandes, havia muita serrarias”, rememora. A vinda estava repleta de expectativa. A família dela já tinha migrado para o Maranhão anos antes, em 1959, em busca de terra para melhorar as condições de vida. No Piauí moravam em propriedades de outras pessoas. A regra era clara: tinham que entregar parte da produção para o dono da terra. Essa situação de dependência os incomodava, por essa razão buscaram outros horizontes.

No Maranhão moraram perto da cidade de Governador Archer, depois foram para Barra do Corda, Grajaú, na região central maranhense, e, por fim, Açailândia, em 1975, no sudeste do Estado. Se mudou para o bairro de Piquiá de Baixo, já casada, com o cearense João Vieira de Oliveira.  Ficaram sabendo que o lugar estava crescendo.  Foram movidos pela mesma finalidade que os pais de Angelita: ter um pedaço de terra que pudesse dar sustento, garantir a vida. Em Piquiá nasceram os sete filhos do casal: Joelma, Bernardo, Jozelma, João, Josi, Daniel e Emily.

O marido veio um ano antes e comprou uma roça a 18 km de Piquiá.  Além de ser agricultor, João aprendeu outra função, a de protético, para sustentar a família. Essa última atividade na comunidade lhe rendeu o apelido de “João dentista”.

Angelita afirma que quando chegaram fizeram contato com outras famílias que já estavam aqui. “Quando chegamos morava Alice, Dejarci e dona Graça, Manoel Januário e Creusa, Alberi e Maria, Antonio Queiroz e Maria, seu Pinheiro e dona Margarida. Seu Chagas tinha um comércio. Joaquim morava numa fazenda perto e Antonio Rio já estava aqui”.

Naquela época, a moradora ressalta que, além do comércio e das serrarias, a movimentação também acontecia em torno da escola e da primeira igreja protestante, instaladas no bairro na metade dos anos 70.  Angelita, que se tornou professora  depois,  lembra que tinham boa qualidade de vida naquele momento. Bem diferente do que acontece hoje. “Tudo era muito limpo. Para você ter uma ideia, meu marido pegava água na Ponta do 40 para tomar na roça”, comenta Angelita.

A comunidade ganhou um posto de saúde por volta de 1983. Uma das primeiras enfermeiras a trabalhar no local, Maria José de Sousa, morou por um tempo na casa de Angelita e João, que se empenhavam para ajudar os profissionais de saúde que vinham para Piquiá, vindos de outras cidades. Consideram aquele apoio importante para o bairro, pois João tinha entrado na vida pública e queria ajudar o local a ter melhorias. Ele chegou a ser o primeiro vereador eleito lá. Mas depois se desgostou e deixou a cena política.

Alguns anos antes do posto, Angelita percebeu que começaram a desmatar uma área perto do riacho de Piquiá de Baixo. Ao conversar com os operários, soube que seria uma ferrovia do projeto Grande Carajás, que iria levar minério da Serra do Carajás-PA ao porto da capital, São Luís. A estrada passaria no bairro. E que em dez anos, tudo ficaria pronto.

Os anos passaram e o trecho da ferrovia foi finalizado, com os primeiros testes em 1984. E as mudanças não pararam. Entre 1984 e 1988, as primeiras duas siderúrgicas chegaram: Viena Siderúrgica e Companhia Vale do Pindaré. Para isso, recorda Angelita, a paisagem do bairro mudou: “compraram os terrenos dos fazendeiros, o terreno da Viena era do seu Zé Miúdo. Foram comprando as terras e foram se agregando e tomaram de conta”. Em 1990, mais uma siderúrgica se instalou, a Gusa Nordeste, do grupo mineiro Ferroeste.

A chegada da Gusa Nordeste, impactou complemente a vida de Angelita e sua família. Os fornos da siderúrgica foram construídos no terreno ao lado da casa onde moravam. E os problemas nunca cessaram. Após 28 anos, o dia a dia dos moradores se tornou uma luta contra a destruição. “Você precisa ver o meu quintal. Praticamente todo acabado. Não tem utilidade mais para nada”, diz indignada. Quem percorre hoje os 5 mil e 100 metros quadrados do terreno atrás da residência da família tem uma sensação horrível, de perda, de aniquilamento. As bananeiras, as goiabeiras, os algodoais, entre outras árvores, estão revestidas de uma poeira negra. Se alimentar dos frutos desses pés pode ser um perigo. É praticamente um quintal morto, onde a poluição avança sobre tudo e todos.

O teto de cada cômodo da casa, onde Angelita mora desde 1982 é recoberto por um plástico, preso aos caibros de madeira, onde se acumulam os resíduos expelidos pela siderúrgica. É uma tentativa de impedir que os respirem. A casa é limpa todos os dias, porque os móveis, como mesas, geladeira, armários e camas, acumulam a poeira escura Essa cena se repete em quase todas as casas de Piquiá de Baixo.

Angelita, que tem problemas na coluna, agravado por limpar a casa intensamente,8ii se recorda de um episódio que resume a “queda de braço” contra a destruição:

“O rio passava aqui, mas foi tirada a corrente do rio. E ficou assim brejado. Eu conversei com o meu filho Bernardo e decidimos plantar açaís e buritis. Num dia plantamos 111 pés. E não falhou um. Mas quando estavam grandinhos, a água veio dos altos fornos  com tudo. Quebrou uma ribanceira que a Gusa construiu, embora tenha parado a construção no meu quintal, e a água quente derrubou tudo, acabou com tudo. Isso faz sete anos. Matou tudo. Não sobrou um pé só”, relembra entristecida.

O LEVANTE EM PROL DA VIDA

Angelita, que costuma receber a visita de filhos e netos, me disse uma frase forte ao narrar sua luta para ajudar a família e a comunidade por uma vida digna: “Nunca desisti fácil das coisas. É difícil, mas não era impossível’. Essa postura de enfrentar as dificuldades, com perseverança, mesmo em situações desiguais, sintetiza o que ocorreu com a comunidade de Piquiá de Baixo. As dezenas de famílias poderiam ter sucumbido simplesmente optado por deixar tudo para trás, sair do bairro e procurar outro local para viver por conta da pressão do poder econômico.

 Porém, não foi o aconteceu. Em 1989, fundaram a União Comunitária dos Moradores de Piquiá, como informa a ata de organização datada de 7 de julho daquele ano. O primeiro presidente foi Raimundo Nonato Silva de Souza  e o secretário José Henrique  Moreira Menezes.  O bairro já tinha um histórico de mobilização: fundaram em 1968, o Clube de Mães de Piquiá, que conseguiu melhorias como cestas básicas e um poço artesiano. Não eram de esmorecer.

Mesmo assim não foi nada fácil. Sozinhos, enfrentavam dificuldades para mobilizar os moradores. As siderúrgicas foram se instalando uma a uma, sob a promessa de empregos que não se concretizaram. Clarinda lembra bem do que aconteceu. “Não contratavam os daqui porque não tinham experiências”, ressalta.

Atingidos pela degradação ambiental e deficiência na oferta de serviços públicos (saneamento, segurança, saúde), alguns moradores começaram a adoecer e casos de mortes, até de crianças, levaram a comunidade a intensificar a mobilização. A vulnerabilidade social é recorrente no local, onde 90% dos moradores tem uma renda abaixo de R$ 678,00 e 45% estudaram pouco, sequer completaram o ensino fundamental, conforme levantamento da associação dos moradores, feito em 2013.  

Seu Joaquim lembra que a associação, em 2005, sob a liderança de Edvard Dantas Cardeal, o seu Edvar, mudou a estratégia. Uma carta foi escrita ao então presidente Luís Inácio Lula da Silva. A ideia era relatar o que a comunidade estava passando e solicitar providência do poder público. A resposta do Poder Executivo veio com uma recomendação: acionarem o Ministério Público Estadual, em São Luís.

Outra frente foi entrar com ações de indenização, o que teve o apoio de 21 moradores. “Fomos nas casas para saber se queriam sair”, conta Joaquim. “Queríamos botar essas empresas na justiça”. O comerciante afirma que as siderúrgicas não adotaram efetivamente medidas para diminuir a poluição, o que motivou a associação dos moradores a seguir com as ações.

Também procuraram o apoio da igreja católica, através da Missão Comboniana, na Igreja de São João Batista. A partir daí, uniram forças com organizações governamentais e não governamentais, como a Rede Justiça nos Trilhos, criada em 2007 (rede de comunidades atingidas pelos projetos de mineração e siderurgia instalados ao longo da estrada de ferro Carajás e que tem assessoria dos movimentos sociais, grupos de pesquisa das universidades, organizações sindicais, pastorais, entre outras); Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán (CDVDH), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Defensoria Pública do Maranhão e Ministério Público.

Através dessa grande articulação, que fez a mobilização ser conhecida no país e no exterior, as 312 famílias, que reúnem 1.100 pessoas, construíram através de reuniões e protestos, uma solução conjunta: querem o reassentamento coletivo para um novo bairro, cujo nome também escolherem em votação: Piquiá da Conquista. “Mudou muita coisa, está mudando”, atesta Antonio Rio sobre os desdobramentos dessas atividades, as manifestações e dos contatos.

Não tenhamos dúvida, a comunidade de Piquiá de Baixo está escrevendo sua nova história, movida pelo espírito coletivo e a determinação.

Por Roseane Arcanjo

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