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CERCADA DE GUSEIRAS, PIQUIÁ NÃO TEM OPÇÕES DE TRABALHO

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CERCADA DE GUSEIRAS, PIQUIÁ NÃO TEM OPÇÕES DE TRABALHO

“Morar em Piquiá de Baixo é tipo um tormento, não tem sossego. Vim morar aqui por causa do emprego que é mais perto”, relata o paraense Juedi Pereira Elias. O jovem trabalha como operador de pá-carregadeira e maneja máquinas e tratores que alimentam de carvão o alto-forno para a produção de ferro gusa.

 

Ele tem 28 anos e é de Paragominas no Pará, mas mora no Maranhão desde os nove, quando começou a trabalhar numa carvoaria ajudando o padrasto no serviço. O mais velho de oito irmãos estudou até a quinta série e abandonou a escola para trabalhar. Juedi é exemplo de muitos que migram de sua terra natal em busca de emprego em outro estado. Tendo passado por inúmeros serviços e condições de trabalho degradantes, o rapaz se diz consciente de sua condição, mas acredita não ter outra opção de serviço.

 

Dura vida nas carvoarias

O relatório do Greenpeace “Carvoaria Amazônia”, publicado em maio de 2012 pouco antes da Rio+20, já advertia para a dura realidade das carvoarias locais. “Os trabalhadores, que com frequência acabam morando na própria carvoaria e abastecem os fornos e acendem o fogo para queimar a madeira por até sete dias, transformando-a em carvão. Em seguida, o carvão é levado em caminhões e distribuído pelos mais de 40 altos-fornos das guseiras da região (de Carajás – que engloba partes do Pará, do Maranhão e do Tocantins), servindo para converter o minério de ferro bruto em ferro gusa”.

 

“É nas siderúrgicas onde tem para trabalhar. É o serviço da gente… se não tiver isso aí como é que a gente vai cuidar dos meninos e pagar o aluguel?”

 

As carvoarias da região costumam empregar mão de obra análoga à escrava e usar madeira de origem ilegal para reduzir despesas e aumentar o lucro, denunciou o Greenpeace. Estima-se que um terço da madeira que entra nos fornos de carvão seja proveniente do desmatamento ilegal. Juedi conhece bem essa realidade das carvoarias. “O serviço do meu padrasto era mais mexer com carvão e eu não gostava. Era um serviço ruim, tipo escravo. Meu padrasto trabalhou a vida toda assim, era dificultoso demais. A gente morava perto do forno”, lembra.

 

Nos altos-fornos

O jovem operador de pá carregadeira aprendeu o ofício aos 11 anos. Há nove meses mora sozinho em Piquiá de Baixo. Já trabalhou na Fergumar como operador de pá e, mais recentemente, na Gusa Nordeste, onde ficou por sete meses. “É nas siderúrgicas onde tem para trabalhar. É o serviço da gente… se não tiver isso aí como é que a gente vai cuidar dos meninos e pagar o aluguel? Só dá para trabalhar nessas firmas aí mesmo, é o que tem… se parar vamos viver de quê?”, pergunta. Como condutor da pá carregadeira, Juedi afirma nunca ter recebido pagamento por insalubridade sob a alegação de que não pegava a poeira toda. “Lá era quente demais, passa pertinho do alto-forno”.

 

Quem ganha por insalubridade nos postos considerados mais insalubres recebe pouco mais de R$ 100, valor considerado insuficiente pelos trabalhadores para uma função tida como perigosa.

 

O ofício é considerado por Juedi a melhor entre as suas opções. Ele já trabalhou no viveiro de eucaliptos na Viena Siderúrgica S/A. Trata-se da maior e mais antiga guseira de Açailândia, com produção de 500 mil toneladas de ferro por ano. A empresa detém grande área de cultivo de eucaliptos, controla cinco altos-fornos e faz parte de um grupo composto por outras duas grandes guseiras, a Companhia Vale do Pindaré e a Siderúrgica do Maranhão (Simasa). Estas três juntas tem capacidade anual de produção de 1,5 milhão de toneladas de ferro gusa. Pelo menos 80% da produção de Viena é exportada para os Estados Unidos. Segundo denúncia do Greenpeace, a Viena negociou com carvoarias ilegais, que empregam mão de obra escrava e estão ligadas à destruição da Amazônia.

 

“Trabalhei no eucalipto com trator de pneu. A gente roçava, gradeava a terra para plantar o eucalipto. Fiquei nesse tempo uns oito meses, era muito ruim. Pegava muito mato na gente, coçava demais. A gente ganhava mais pela hora extra que fizesse, tinha vezes que fazia 8 horas fora o horário normal”, conta, relatando que pegava no trabalho às 4h da manhã e seguia até 7h da noite para ganhar, quando muito, R$ 1.300 no final do mês, contando as horas extras.

 

Como operador de máquinas nas siderúrgicas, por seis anos, ele carregou gaiola de carvão com o trator para uma prestadora de serviços da Fergumar, recebendo um salário médio de R$ 2.000 por mês, contando horas extras.

 

“Tem gente que até desmaia pela quentura”

 

“Pretendo continuar aqui, vou botar currículo de novo nas outras firmas aí”, diz. O jovem carregador conversou com ((o))eco enquanto ajudava o vizinho a abrir um caminho na terra para a água da cozinha e pias dos banheiros das casas escorrer. A água de todas as casas escorre pelas ruas da comunidade.

 

“É esquisito, a gente vive desse serviço aí e pode morrer disso. Fica preocupado com a vida, depois fica doente, mas fazer o quê? Eu nunca tive nada, mas tem gente que até desmaia lá dentro pela quentura. O gás é alto demais e o corpo não aguenta”

 

Ele e os demais moradores do entorno das guseiras respiram o pó de ferro proveniente do alto-forno. Questionado a respeito, Juedi diz que evita pensar no impacto da atividade que exerce. “É esquisito, a gente vive desse serviço aí e pode morrer disso. Fica preocupado com a vida, depois fica doente, mas fazer o quê? Eu nunca tive nada, mas tem gente que até desmaia lá dentro pela quentura. O gás é alto demais e o corpo não aguenta”, relata.

 

Durante a entrevista, a conversa com Juedi foi interrompida várias vezes pelo barulho do trem de minério que passava pela “Ponte dos 40” que corta o rio da comunidade por onde passa a ferrovia Carajás. “É de hora em hora, e a noite todinha”, diz o trabalhador. “A gente nunca acostuma com isso aí não. Ter medo a pessoa tem, mas tem que arriscar”.

 

Ele diz que até gostaria de morar em outro lugar, mas podendo ganhar dois salários trabalhando nas guseiras, muito mais que a média da renda familiar em Piquiá, não cogita mudar de bairro agora.

 

Ciclo perverso

Na opinião do missionário italiano Dário Bossi, os moradores vivem um ciclo perverso, ao ter que escolher entre o emprego e a saúde. “Eles devem coexistir, não podemos aceitar a obrigação de escolher quais direitos serão garantidos e quais não. A sobrevivência se torna antagonista dos direitos. O caminho é construir alianças que a gente tenta tecer entre o mundo sindical e o socioambientalismo”, diz, explicando que, em inglês, o termo para descrever tal aproximação é “blue green alliance”.

 

O missionário explica que Piquiá e a população que vive no entorno do pólo siderúrgico formam um exemplo do que se chama de “zonas de sacrifício”. A expressão é de origem americana e utilizada pelos movimentos de justiça ambiental para designar áreas de superposição de instalações responsáveis por danos e riscos ambientais à população local, em geral, de baixa renda, onde o valor da terra é relativamente mais baixo. Nessas áreas, os moradores convivem com a poluição industrial do ar e da água, depósitos de resíduos tóxicos e solos contaminados.

 

“Esta teoria sociológica demonstra como grandes empreendimentos necessitam do tapete para esconder seus estragos. Sempre existe o entorno silenciado de pessoas que não têm mais a força ou interesse de levantar a voz. A necessidade de sobrevivência é mais forte que a de lutar por direitos”, diz Bossi.

 

Longo processo de degradação

Açailândia, no sudoeste do Maranhão, iniciou suas atividades econômicas com a extração da madeira na década de 1980, mesmo período em que foi instalada a Estrada de Ferro Carajás e as indústrias guseiras. Por quase 15 anos, as siderúrgicas alimentaram a produção de ferro gusa exclusivamente com mata nativa e, por isso, tornaram-se os principais atores do desmatamento. Hoje, tais siderúrgicas mantêm fazendas próprias de eucalipto para garantir o suprimento de carvão vegetal.

 

“A indústria madeireira tirou a madeira de lei, depois vieram as siderúrgicas que tiraram a madeira mais fina, a capoeira, e, onde não tinha mais floresta, foi feita a pastagem para o gado e eucalipto”, conta o advogado Antônio José Ferreira Lima e Filho, do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia, .

 

Esta que é uma das maiores cidades em geração de riqueza do estado, já teve 500 produtores de carvão, muitas das quais unidades artesanais que funcionaram até o ano 2000. No seu auge, a indústria de carvão empregou quase 20 mil pessoas. “Parte era trabalho em condições degradantes. Como não existe mais a floresta de onde tirar a lenha para o carvão, [tais unidades] foram substituídas por grandes pólos de produção de carvão industrial”, destaca o advogado da ONG, criada em 1996.

 

“O município não é pobre, mas há um descompasso político, empresarial e industrial que não consegue fazer a cidade se desenvolver. A gente não visualiza na região progresso e desenvolvimento. É uma produção que gera muita riqueza, mas as pessoas não sentem no dia a dia, na educação, saúde, infraestrutura da cidade ou em condições de trabalho”, diz Lima e Filho.

 

O que dizem as indústrias

Procurado pela reportagem para comentar os problemas socioambientais detalhados nesta série especial de reportagens, o Sindicato das Indústrias de Ferro Gusa do Maranhão (Sifema) respondeu que o próprio setor passa por crise financeira desde o ano 2008, quando foi iniciada a crise econômica mundial que atingiu seus principais mercados consumidores, os Estados Unidos e a Europa. Na época, contratos foram suspensos ou cancelados e novas compras foram adiadas. O setor de ferro gusa maranhense é formado por médias e grandes empresas e é eminentemente voltado para a exportação. Cerca de 99% de sua produção segue para os EUA. “Foi esse perfil que fez com que as empresas tenham sido tão profundamente atingidas pela crise econômica e mundial de 2008”, informa o sindicato.

 

O Sifema representa as sete indústrias instaladas no Maranhão. Cinco delas – Fergumar, Gusa Nordeste, Simasa, Pindaré e Viena – estão em Açailândia e as outras duas em Bacabeira (Margusa) e Pindaré Mirim (Cosima). A capacidade de produção do pólo siderúrgico maranhense varia de 1,5 a 1,8 milhão de toneladas por ano.

 

Além da crise financeira dos mercados consumidores, as siderúrgicas maranhenses também tiveram que lidar com a alta no preço dos principais insumos e desvalorização no preço do ferro gusa. Para sobreviver, muitas cortaram funcionários, diminuíram a capacidade produtiva para 30% e até paralisaram a produção. Ainda hoje, os grupos buscam novos mercados na Europa e Ásia, e há siderúrgicas que permanecem fechadas ou operando com apenas um terço ou metade da capacidade de produção.

 

No pólo industrial, há ainda a expectativa de entrada em operação da Aciaria Gusa Nordeste, que produzirá tarugos de aço (ou lingotes, que são produtos siderúrgicos usados como matéria-prima para a laminação), que demandará o ferro gusa das usinas de Açailândia. Mas, enquanto isso não acontece, a produção segue em ritmo reduzido, e o impacto na economia do município é grande. As empresas de Açailândia são as principais responsáveis pela geração de divisas e, mesmo com a crise no setor, o município está entre os que têm maior arrecadação de ICMS no Maranhão. O cenário é de desigualdade social e pobreza, mas, mesmo assim, a crise acaba afetando toda a população. O pólo siderúrgico emprega, segundo o sindicato, cerca de 2 mil pessoas e possui mais de 140 mil hectares plantados com eucaliptos em áreas anteriormente degradadas.

 

A estratégia de substituir carvão feito a partir de desmatamento por eucalipto plantado é consequência do esgotamento das florestas do entorno, e também da pressão de autoridades e ambientalistas. O Sifema tem apresentado a novidade como “um exemplo de reflorestamento” e falado em “gusa verde” para se referenciar ao ferro produzido com carvão de eucalipto. “Além de tornar o setor autossustentável em produção de carvão vegetal, o uso de florestas plantadas possibilita a produção do gusa verde”, diz o comunicado enviado a ((o))eco.

 

Na nota, frente à crescente pressão de ambientalistas e movimentos sociais por leis e fiscalização para por fim à degradação ambiental e humana provocada pelo pólo,o Sifema também reclama do que classifica como “insegurança jurídica que ronda o setor, sobretudo na área ambiental”.

A população, sem opções, segue produzindo e respirando ferro.

Esta é a sexta reportagem da série especial Piquiá de Baixo, sobre a vida dos impactados ambientais da produção de ferro gusa no Maranhão.

 

Por: Fabíola Ortiz /o eco

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