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SAÚDE DE PIQUIÁ DE BAIXO VIOLADA PELO “DESENVOLVIMENTO”

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SAÚDE DE PIQUIÁ DE BAIXO VIOLADA PELO “DESENVOLVIMENTO”

É no Brasil, um país que se diz rico e sem pobreza. É no Maranhão, estado conhecido por ser propriedade de poucos, uma terra quase sem lei. É em Açailândia, a cidade que tem o terceiro maior Produto Interno Bruto (PIB) do Maranhão, onde está localizado um dos maiores conglomerados empresariais siderúrgicos do Brasil, e também onde se encontra os piores casos de violações de diretos a saúde. Mais especificamente no bairro de Piquiá de Baixo, conhecido mundialmente pela luta dos moradores em defesa dos seus direitos.

 

Não é necessário consultar um especialista que estuda o assunto, para entender a gravidade dos problemas provocados pelos empreendimentos situados no bairro. Os melhores especialistas são os moradores que vivem na comunidade.

 

São eles que sente na pele diariamente, o descaso das autoridades com a situação em que se encontram. Essa realidade reflete diretamente no futuro das famílias de Piquiá. E quando se pensa em futuro, quem melhor para falar dele, se não as crianças? Nesse momento entram em cena Laiane Bezerra, Tamires Andrade de nove anos e Maria Luísa de oito.

 

Na comunidade há um posto de saúde que atende somente os problemas básicos. Insuficiente para resolver os casos de extrema gravidade, comuns em Piquiá de Baixo. As pessoas que apresentam quadro grave de saúde, são geralmente transferidas para a cidade de Imperatriz. Entre as doenças que afetam essa comunidade, as mais comuns são: problemas respiratórios crônicos, asma, dor de cabeça, febre, irritação nos olhos, crise de espirros, dor de garganta, e até mesmo câncer de pulmão.

 

O motivo de tantos problemas de saúde em uma comunidade de apenas 312 famílias, somando aproximadamente 1.100 pessoas, é simples. Pó de ferro! Jogado dia e noite sobre as residências, pelas cinco siderúrgicas que operam no entorno: Viena Siderúrgica S/A, Siderúrgica do Maranhão S/A, Companhia Siderúrgica do Vale do Pindaré, Ferro Gusa do Maranhão e Gusa Nordeste. Tamires Andrade conhece bem essa realidade, “as pessoas ficam doentes da poluição. Sentem dor no coração, na garganta, na cabeça”…

 

Nesse momento ela é interrompida pela colega Maria Luísa, “e também a minha prima já morreu por causa da poluição. Os pulmões dela pararam de funcionar”. A prima de Maria Luísa é Deusivânia de Oliveira, 32, que morreu vítima de embolia pulmonar, no dia 18 de março de 2014, depois de passar um mês e seis dias internada no Hospital Municipal de Imperatriz.

 

De acordo com o relatório da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH)sobre Piquiá de Baixo, feito em 2010, em parceria com a Justiça Global e a Rede Justiça nos Trilhos, a comunidade apresenta uma situação crônica na saúde, as condições são tão graves, que o relatório aponta o bairro como local sem condições de ser habitado.

 

O reassentamento foi o caminho encontrado para oferecer dignidade a uma população que há mais de duas décadas acumula pó de ferro nos pulmões. Laiane Bezerra explica que gosta da ideia de ir morar em um bairro longe de Piquiá de Baixo. “Nós gostamos da ideia de ir embora daqui porque a poluição é muito grande. E para não ter mais esses problemas a comunidade tinha que ficar toda limpa, e isso não vai acontecer”.

 

A limpeza de que fala Laiane, não é apenas uma limpeza física. A dívida do poder público e das empresas que privaram essas famílias de usufruir dos direitos mais básicos e elementares para a sobrevivência, é acima de tudo, moral. Não se pode buscar o desenvolvimento a qualquer custo, é necessário preservar a dignidade humana. Falta humanidade aos empresários da mineração.

 

Domingos de Almeida

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