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UMA OUTRA REALIDADE É POSSÍVEL: OS SONHOS DE ANTÔNIA FLÁVIA DA SILVA NASCIMENTO

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“Enquanto tiver força, lutarei por eles”. Foi assim em meio as lágrimas de emoção e o sorriso da partilha que Flávia respondeu ao perguntarmos que mensagem teria para os dois filhos daqui a 10 anos. A força da jovem negra de 23 anos, moradora do Piquiá de Baixo, filha de dona Maria José (63 anos) e seu Adelson Ferreira (80 anos) e mãe de Aylla Sophia (4 anos) e Miguel (1 ano) é fonte de pura inspiração. Durante a visita a comunidade, fomos convidados por ela para conhecer a casa de sua família, lugar que cresceu e vive até hoje. A mãe dela, dona Maria José, nos recebeu com um sorriso contagiante e já foi espalhando cadeiras pelo terreiro. Limpa daqui, limpa dali, aos poucos os assentos que estavam cheios de pó de ferro formaram uma bonita roda para o momento de escuta. E foi ali mesmo, próximo de um bar, onde alguns rapazes cortavam cabelo e ao barulho dos carros que passavam pela BR 222, que Flávia começou a nos contar a sua história.

Começa a conversa confessando quem é Flávia para Flávia: “Eu me considerava muito chata, muito ignorante entre a família e amigos. Mas depois que eu me adequei a esses projetos, a igreja e a associação, a tudo que sou encaixada hoje, eu já aprendi muita coisa. Aprendi a conviver entre as pessoas e saber o que falar.” Além das responsabilidades domésticas, divide seu tempo em ser tia-mãe de duas sobrinhas. É pesquisadora no projeto “Vigilantes popular em saúde” que acompanha a poluição do ar na comunidade, no qual recentemente ganhou prêmio da FAPEMA. E não para por aí, ela ainda é a 2° secretaria da Associação dos Moradores de Piquiá. Para ela, as primeiras lutas foram marcantes. O empoderamento coletivo foi descrito com ar saudoso do momento vivido: “A gente enfrentou chuva, sol, polícia, os poderosos e mesmo assim a gente estava lá. Então, foi isso que incentivou a gente ir mais pra frente, foi saber que não era aquela luta que ia nos deixar cair e sim nos fortalecer ainda mais”.

O despertar para a luta veio com os convites de Padre Dário e Jordania. E explica: “A gente sabendo que o nosso bairro é poluído, que temos uma luta muito grande, despertou por conta disso, até porque como eu falei que eu não sabia desse processo de reassentamento, pra mim era um tanto faz, mas aí depois do convite para entrar na diretoria, no projeto e de algumas formações que a gente é convidado pela Justiça nos Trilhos, a gente despertou ainda mais o nosso olhar para o bairro”. Ao diferenciar as Flávias antes e depois de adentrar no movimento de luta, ela nos diz assim: “Eu digo que foi ser mãe. Pra mim foi isso. Antes eu era apenas um adolescente e hoje eu sou uma mãe, dona de casa que tem os meus pais para cuidar, que não estão mais tão novos”.

A guerreira Fláva, aproveita o afloramento da consciência para refletir sobre o comportamento dos jovens da comunidade, e nos diz que eles “têm que participar mais. E quando participar das formações eu acho que eles têm que chegar em casa e falar para os pais sobre o que eles viveram de uma forma construtiva. Antes eu não brigava porque não sabia, hoje eu brigo porque eu sei. A gente só conquista alguma coisa quando a gente tem fé e quando a gente vai à luta.  Então é assim, as pessoas têm que saber que nada na vida é fácil. A gente tem que ir com força e com fé, que um dia, a gente consegue. E assim é a nossa luta, dessas 312 famílias que resolveram optar pelo reassentamento”.

Quando perguntamos o que é mais difícil nessa luta, ela nos surpreende com mais um ensinamento. “Antes eu achava que eram alguns moradores. Depois que a gente foi para manifestação na frente da Geap (Caixa Econômica Federal) em São Luís, não acho que era aqueles moradores que não acreditavam, hoje eu sei que difícil são aquelas pessoas que estão lá no poder e que acham que podem tudo, fazer o que bem quiser, que as pessoas podem morrer aqui mais e mais, que podem pegar mais pó na cara, que as crianças podem adoecer e eles não estão nem aí, porque eles não estão sentindo”.

Flávia recorda com alegria o espetáculo da quadrilha Matutos do Rei sobre o Piquiá de Baixo. “Foi um espetáculo bonito e crítico. A quadrilha ganhou e foi representar o Maranhão em Recife. Tivemos um espetáculo belíssimo. É um bairro conhecido mundialmente e que dar força para outras pessoas lutarem.”

Ao final desse momento de partilha saímos renovados. Aprendemos que despertar é caminhar com as próprias pernas e de mãos dadas com a comunidade. Sonhamos outra realidade. E mesmo com o passar das horas, dona Maria José, nos contagiou com toda sua energia e entusiasmo, “ainda não vão crianças, vamos jogar prosa fora”.

Por

Antônio Guajajara

Domingos de Almeida

Joércio Pires “Leleco”

Lanna Luiza Silva

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